“Uso do capacete é a medida menos importante para a segurança” diz ciclista campeão olímpico

17 de março de 2014

Notícias

Chris Boardman, ciclista campeão olímpico em 1992, fez uma afirmação polêmica: “O capacete não está nem mesmo na lista das 10 coisas mais importantes para a segurança de um ciclista”.

A declaração foi dada para o site britânico road.cc, especializado em ciclismo, e pelo que parece, não reflete apenas a opinião de Boardman, e sim, da Federação Britânica de Ciclismo, da qual o ciclista campeão é conselheiro.

No site da entidade é possível ler que “os lugares mais seguros do mundo para se pedalar são também os lugares onde a minoria dos ciclistas usam o capacete”. A Federação britânica também reforça que apesar de orientar o uso do capacete, reconhece a proteção limitada que o equipamento fornece. Ou seja, o orgão, assim como Boardman, entende que o uso capacete não está entre as medidas mais importantes para a segurança de quem pedala.

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Campeão olímpico diz que o capacete não está na lista das 10 coisas que tornam o ato de pedalar seguro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na entrevista para o road.cc, Boardman ainda cita outro dado: “Apenas 0,8% dos ciclistas holandeses usam capacete, e mesmo assim, o país tem a menor taxa de trauma crânio encefálico do globo. Já nos Estados Unidos e Reino Unido, os lugares mais encapacetados do mundo, a taxa de traumas na cabeça são as maiores do planeta.”

Uma distração

Boardman lembra que está na hora de parar a distração com o tema capacete e começar a focar em temas reais sobre segurança. “A melhor maneira de diminuir os traumas crânio encefálicos é fazendo o que os Holandeses têm feito” disse.

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Federação Britânica de Ciclismo reconhece: os lugares mais seguros do mundo para se pedalar, são também os lugares onde a população não usa o capacete.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O medalhista olímpico diz ainda que o capacete faz o ciclismo parecer mais perigoso do que realmente é. “Você pode dar mil voltas ao mundo para cada morte de um ciclista. Você estará mais seguro do que no seu jardim” diz o ex-esportista.

A realidade brasileira

Será que as declarações de Boardman se aplicam ao Brasil? Apesar de entender a lógica por trás de suas declarações, não sei se eu teria coragem de trafegar sem o meu capacete por aqui, visto que o risco de ser tratorado por um carro a qualquer momento, infelizmente, ainda é bem real. 

Recentemente o ex-secretário de saúde do Governo do Estado do Espírito Santo, Anselmo Tozi, foi atropelado enquanto trafegava de bicicleta. Acho que dificilmente sobreviveria se não estivesse usando o capacete.

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A Organização da Sociedade Civil (OSC) Transporte Ativo, uma das entidades mais respeitadas no assunto aqui no Brasil, publicou um artigo onde parecem convergir com as ideias de Boardman e da Federação Britânica de Ciclismo.

Publico aqui uma parte do texto:

Dentro da defesa do status quo, estão também os próprios ciclistas, em especial os “ciclocapacetistas”, aqueles que defendem com fé cega o uso do capacete e dos equipamentos de segurança acima de todas as coisas.

Defendem o capacete para justificar um fato que não é natural; pelo contrário, poderia muito bem ser evitado. É um fato cultural. Usam argumentos do medo e da segurança para manter uma situação isto é: “eu uso capacete e consegui sobreviver à guerra do trânsito”.

Vale questionar a própria necessidade dessa “guerra no trânsito”. É possível fazer um paralelo entre o “ciclocapacetistas” que “quebrou o capacete em mil partes” e um soldado que volta vivo da guerra e diz que conseguiu sobreviver porque o estilhaço da bomba pegou no capacete.

Antes de discutir a necessidade do capacete para soldado, precisamos discutir se é preciso haver guerra. Neste sentido, quem defende com unhas e dentes o uso de capacete de alguma forma está querendo se “adaptar” à situação, e não está querendo mudá-la. “É um fato triste ter guerra, mas elas existem e os soldados precisam de capacete.”

Muito pelo contrário, ciclistas não são soldados que devem se “proteger a todo custo” dos “inimigos”. É preciso acima de tudo ter o entendimento que o uso que se faz hoje das ruas das nossas cidades é uma distorção e que essa distorção só irá ser revertida quando houver o entendimento de que acima de tudo é preciso promover o uso da bicicleta com conforto e segurança.

As medidas para isso já estão no papel e em diversos estudos. É o planejamento cicloviário que:

1 – legitima o uso que os ciclistas fazem das ruas, como atores legítimos no trânsito,
2 – coíbe o excesso de velocidade por parte dos veículos motorizados
3 – aumenta as zonas compartilhadas com limite de velocidade de até 30 km/h
4 – constrói ciclovias segregadas em vias de grande fluxo motorizado
5 – distribui bicicletários em espaços públicos e privados.

No Espírito Santo

Por aqui, quem inicia um debate sobre o tema, infelizmente ainda é tratado com deboche e piadas. Eu e minha amiga Detinha Son que o digamos.

Algumas pessoas pegaram uma entrevista onde debatíamos justamente sobre tudo o que foi falado acima. Até hoje não consigo entender o motivo do deboche contido neste vídeo:

Outro ataque bem comum é falar que só usa capacete quem tem cérebro para proteger.

dassasssaaaa

Federação Espirito Santense de Ciclismo (FESC)

Questionado sobre qual a posição da FESC em relação ao tema “uso do capacete dentro da cidade”, Sandro Oliveira, presidente da entidade, declarou à este blog:

Minha dica é: use sempre o capacete, até para ir na padaria! Use sempre roupas claras. Sinalize sempre para os motoristas. Respeite o próximo. Seja cordial.

Não podemos comparar o Brasil com o primeiro mundo. Mesmo assim, os números que tenho são outros: quando não se usa o capacete, a mortalidade é de 67% por trauma craniano. Com capacete, desce para 7%. Só em 11% dos acidentes com bike há automóveis envolvidos, e em 74 % o ciclista cai sozinho. Dos 11% que se envolvem com automóveis, menos de 2% são atingidos por trás.

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E você? O que acha do assunto? Acha que podemos comparar o Brasil ao “primeiro mundo”? Tem artigos e números diferentes dos apresentados aqui? O tema é polêmico e divide opiniões entre ciclistas.

Deixe um comentário e recomende este post para um amigo que se interessa pelo assunto. Esse assunto precisa ser conversado e debatido entre todos os amantes da magrela.

:)

ps: Existe um vídeo do fundador do movimento Cycle Chic, Mikael Colville-Andersen, onde ele diz porque (segundo ele) não devemos usar capacete ao pedalar. Alguns argumentos são bem interessantes:

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