Cicloviagem: Conceição da Barra – Salvador (Parte 6)

16 de março de 2014

Conceição da Barra - Salvador

# Dia 36 – Ditadura do capital – 6 km

Ao chegar na Praia do Encanto, novamente entrei em transe. Fiquei por algumas horas ali, sem fazer nada, olhando para o céu e para a areia. Parecia que eu estava sobre o efeito de algum remédio ansiolítico, tamanha a paz que eu sentia.

O lugar é simplesmente F-A-N-T-Á-S-T-I-C-O. (Veja o vídeo no topo do post)

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Em transe
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Cerca de 50 m dali, havia um resort super luxuoso. Os hóspedes me olhavam com muita curiosidade e perguntavam de onde eu estava vindo. Foi nessa hora que eu descobri que quem entra em Morro de São Paulo pelo porto necessita pagar uma taxa de 15 reais. Como eu havia pedalado de Boipeba, não precisaria pagar a taxa.

Gastei os 15 reais bebendo cerveja no resort… rsrs

O lugar era tão legal que eu nem vi a maré subindo. Quando notei, tive que me apressar, senão não conseguiria chegar em Morro de São Paulo.

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15 reais em cerveja
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Ouvi muitas pessoas falando que Morro de São Paulo não era tão legal quanto Boipeba. Só que quanto mais eu pedalava, mais bonito ficava. Eu não conseguia entender como as pessoas não tinham gostado daquele lugar mágico.

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De tirar o fôlego
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Chegando na Vila de Morro de São Paulo, entendi a razão pela qual muita gente prefere Boipeba: a ditadura do capital é ultra selvagem. Se você não tem dinheiro, é convidado a se retirar.

Tudo estava tão caro que eu resolvi ir dormir em uma espécie de ilha entre a segunda e terceira praia. Acordei com um fiscal me chutando. “Morro não é lugar pra você. Dá o fora” disse ele.

# Dias 37, 38 – Parasita – 0 km

Depois de ser convidado a ir embora pelo fiscal da prefeitura, resolvi ficar mais dois dias, justamente para entender melhor o que se passava por ali.

As frases que eu mais ouvi foram: “o patrão não quer”, “o patrão não gosta”, “o patrão não deixa”, o que me fez ter certeza que aquele lugar tem dono, e ele, não gosta de “parasitas” como eu.

Era só chegar com a bicicleta na frente de um restaurante, que eu já ouvia as frases citadas acima.

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Acho que alguém por aqui concorda comigo
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Dica: Se você quer paz, e não quer vomitar com todas as injustiças que presenciará em Morro de São Paulo, leve sua barraca e acampe na praia do encanto, a 6 km de distância. O visual é lindo e não tem nenhum fiscal para te tratar como uma parasita.

Só passe na vila para ir embora.

# Dia 39 – Ninguém para culpar – 124 km

Tudo o que eu queria era sair dali o mais rápido possível. Logo cedo peguei um barco para um lugar chamado “atracadouro”. De lá, segui viagem pelo asfalto.

Em Nazaré, em vez de entrar para a direita e continuar na BA – 001, entrei para a esquerda e peguei a BA – 496. Pedalei por 10 km até me dar conta que estava no lugar errado.

Como sabiamente disse o Victor Guidine do blog Trips de Bike, “a pior parte de viajar sozinho é não ter em quem por a culpa”. O erro tinha sido meu e eu teria que arcar com as consequências.

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A interminável Ilha de Itaparica
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Depois de quase 100 km cheguei à ponte que liga a Ilha de Itaparica ao continente. O visual é lindo, entretanto, passar na ponte a pé ou de bicicleta é uma aventura. Sem acostamento e com uma calçada que mal cabe uma pessoa em pé, tive muita dificuldade para atravessar. (Veja o vídeo no topo do post)

Pedalei mais 29 km e cheguei em Bom Despacho, onde pegaria uma balsa para Salvador. Tinha uma regra muito estranha para que ciclistas pudessem entrar pagando como pedestres: você tinha que tirar a roda da frente da bicicleta e entrar com ela apoiada só na roda traseira. Uma vez dentro do lugar de embarque, você podia colocar a roda novamente. Confesso que até hoje não entendi qual a razão disso, uma vez que não é necessário passar por nenhum tipo de roleta.

Durante a travessia pela baía de todos os santos, conheci uma galera que foi me mostrando alguns pontos da cidade de Salvador. Da balsa é possível ver até mesmo a luz do farol de Morro de São Paulo.

Como estava muito tarde, chovendo, e eu não conhecia nada da cidade de Salvador, uma das pessoas que conheci na balsa me ofereceu uma carona até o bairro onde eu iria ficar. Coloquei a bike na traseira da camionete dele e partimos.

# Dia 40 até dia 51 – Salvador – 50 km

Couchsurfing é uma comunidade virtual onde as pessoas se hospedam gratuitamente na casa das outras. Sou membro desde 2007 e já hospedei dezenas de pessoas em minha casa, assim como “surfei” na casa de outras pessoas. E foi assim, de couchsurfing, que eu fiquei em Salvador.

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Farol da Barra – Salvador
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Infelizmente, das capitais onde eu já pedalei, Salvador foi onde eu mais me senti inseguro. O asfalto na faixa da direita era cheio de buracos e ondulações, o que fez com que eu tivesse que pedalar em zigue-zague o tempo todo. Eu cheguei a cair em um buraco e bater na lateral de um carro. Felizmente não foi grave.

Já os motoristas, estes me respeitaram bastante. Em 11 dias de pedal, não recebi uma única buzinada. Não sei se isso é resultado da campanha de respeito ao ciclista que está por todos cantos da cidade, ou se é porque o trânsito estava sempre engarrafado, fazendo com o que o motorista não me enxergasse como um obstáculo para a sua mobilidade.

Tem uma ciclofaixa em Salvador que parece uma piada de mal gosto. Uma linha pintada de azul que deixa um espaço de pouco mais de um palmo para o ciclista pedalar. Um desrespeito com a população mais pobre, que depende da bicicleta para sobreviver.

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Baía de todos os santos
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Falando de população mais pobre, várias vezes em Salvador eu me senti como se tivesse sido teletransportado no tempo para uma grande fazenda nos tempos da escravidão. É inacreditável a forma como a elite soteropolitana trata os funcionários. Alguém precisa avisá-los que a escravidão acabou.

Felizmente, a imensa maioria da população soteropolitana é composta por gente maravilhosa, e é disso que eu vou falar agora.

# A favela do Retiro

Ivo, é um membro do couchsurfing que me acolheu em sua casa. Ele cresceu em uma favela chamada Retiro, onde sua mãe ainda mora. Foi lá que eu vivi os melhores momentos da minha estada em Salvador.

Perto de ir embora, eu estava na favela junto com os amigos do Ivo quando começou uma festa no meio da rua. Foi só passar perto que as pessoas já vieram com bebida e comida para mim. Como se me conhecessem há anos, distribuíam os seus melhores sorrisos e faziam com que eu me sentisse em casa. (Veja o vídeo no topo do post)

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Festa na favela
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Depois disso tudo, foi colocar a bike no ônibus, voltar, e passar mais de um mês achando que iria precisar de tratamento psicológico/psiquiátrico para conseguir voltar à rotina. Felizmente (ou não), eu já voltei ao “normal” e me acostumei com a ideia de voltar a ser mais uma engrenagem na máquina. Só não sei até quando… rsrs

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Voltando pra casa MUITO CONFUSO
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Termino essa série com um relato que escrevi faltando 7 dias para voltar para casa:

Postado dia 27/01/14 em facebook.com/ociclistacapixaba:

Faltam 7 dias para eu voltar para Vitória e ainda não caiu a ficha. Toda hora me pego quieto pensando em tudo o que aconteceu nos últimos 45 dias.

Gostaria de compartilhar três coisas com vocês:

***

1 – As pessoas são maravilhosas. Os bons são a maioria esmagadora.

Se sua fé na humanidade está em baixa, se você está depressivo, pegue uma bicicleta e saia por aí sem rumo.

Nestes 45 dias eu fui alvo das demonstrações de compaixão, carinho e amor mais incríveis da minha vida. Eu me emociono só de lembrar.

Tenha fé! Tudo vai dar certo.

2 – A nossa noção do que é essencial para viver e ser feliz é supérflua, ocupa volume, pesa muito e cansa nossas pernas.

Quando saí de Vitória, tive que pensar o que seria essencial para sobreviver e curtir a viagem até chegar no meu destino. Cada item foi muito bem pensado. Caso contrário, a bicicleta ficaria muito pesada e atrapalharia a viagem.

Com alguns dias de viagem, me livrei de aproximadamente 30% das coisas. Com 20 dias, 50%.

Eu continuava tendo tudo o que precisava para sobreviver, ser feliz e curtir momentos incríveis com todas as pessoas maravilhosas que encontrei pelo caminho. Minha média de velocidade aumentou, a bike não atolava mais na areia e minhas pernas doíam muito menos ao fim de cada dia.

3 – Colocamos a culpa dos nossos fracassos nas outras pessoas o tempo todo.

A pior parte de viajar sozinho é justamente perceber que você não tem em quem por a culpa quando algo dá errado. Você é total responsável por todas as coisas boas e ruins que acontecem.

Isso foi algo difícil de encarar. Porém, muito engrandecedor para mim.

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