Cicloviagem: Conceição da Barra – Salvador (Parte 4)

4 de março de 2014

Conceição da Barra - Salvador

# Dia 16 – Serra Grande – 62 km

Faltando 30 km para Itacaré, começa Serra Grande. A primeira subida já mostra que não é por acaso que a região tem este nome. Chegando no alto do primeiro morro, existem dois mirantes que valem a visita.

Ficamos algum tempo nos mirantes e partimos para os difíceis 30 km que viriam pela frente.

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Mirante em Serra Grande
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Quando se pedala em uma região de serra, é importante aproveitar a embalo das descidas para ajudar a subir o próximo morro. Por isso, eu descia pedalando na marcha mais pesada para pegar a maior velocidade possível.

Pelo fato de eu estar pedalando há mais tempo, estava com o ritmo um pouco melhor que o dos meus colegas. Entretanto, eu não podia esperá-los nas descidas, pois perderia meu embalo. Por conta disso, combinamos que eu sempre os esperaria no alto do próximo morro.

Faltando 17 km para chegar em Itacaré, decidi voltar para procurar meus companheiros, visto que estavam demorando muito. Pedalei até o ponto onde tinha os visto pela última vez e não os encontrei. Fui descobrir posteriormente que eles pegaram carona em um caminhão até Itacaré e não conseguiram me avisar.

Acabou anoitecendo e tive que pedalar no escuro até Itacaré.

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Morros intermináveis
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A dois quilômetros de Itacaré, minha câmera de ar traseira furou. Quando tirei o pneu, percebi que o mesmo estava com sua estrutura abalada. Vários pedaços de arame que compõem a estrutura do pneu estavam furando a câmara. O único jeito seria usar um pneu reserva que eu tinha na bagagem.

Pneu devidamente trocado. Quando fui encher, cadê que a bomba de ar funcionava? O contato com a água do mar tinha feito com que a bomba ficasse completamente travada. Por sorte, um taxista parou no meio da escuridão e me deu uma carona pelos últimos 2 km.

Chegando na Praça dos cachorros em Itacaré, pude ver com calma o que tinha acontecido com minha bomba. Apliquei óleo de corrente e com muito esforço conseguir fazer ela voltar a funcionar.

Já era meia noite e eu só conseguia ficar como um vegetal olhando as pessoas passarem. Procurei um bar, tomei uma cerveja e cheguei a pensar em dormir na praça mesmo. Mas meus companheiros de viagem sabiamente me fizeram desistir da ideia… rsrs

Procurei um camping, montei minha barraca e capotei.

# Dias 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24 e 25 – Itacaré – 0 km

Em Itacaré, fiquei no Camping Tropical. A galera que trabalha lá é super gente boa e honesta. Gostaria de agradecer ao Pelé e a Iza em especial, por terem sido tão legais comigo.

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Pelé, a melhor atração do Camping Tropical
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Ao lado do camping tem o La Lola, casa de tapas. Além da comida ser uma delícia, tem a Fernanda e o Gabriel, dois candangos que fazem com que você se sinta em casa. Certamente o lugar onde eu mais recebi sorrisos em toda a viagem.

Dica: peça a degustação de tapas.

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Fernanda e Gabriel, uma das melhores coisas do La Lola
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Tem até uma bicicleta desenhada dentro do restaurante
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Na festa de réveillon de Itacaré percebi que a polícia só abordava os negros nativos pobres. Turistas brancos, se quisessem, poderiam carregar armas e grandes quantidades de cocaína consigo. Jamais seriam importunados.

A violência com que tratavam os jovens foi me incomodando, ao ponto de eu abordar os policiais para perguntar qual o critério usado para escolher quem seria revistado. Ganhei tapas, chutes e uma revista violenta.

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Polícia Militar baiana em ação
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Só um mergulho no dia seguinte para fazer a tristeza deste momento passar.

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Praia da Ribeira
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São José
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Em Itacaré também aconteceu algo mágico: cinco cicloviajantes se encontraram por acaso. Aprendi muito com o Andrés Fluxa (Ushuaia – Alaska), Ignacio Alfaro (Buenos Aires – Itacaré), Osvaldo Ferrari e María Jimena (México – Ushuaia – México). Certamente me inspiraram a fazer uma cicloviagem continental um dia.

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Rasta, Jimena, eu, Andrés e Osvaldo
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# Dia 26 – Sozinho – 60 km

Depois de 9 dias sem conseguir sair de Itacaré, resolvi que era hora de ir embora. Conheci no mínimo uma dúzia de pessoas que entraram em Itacaré e não conseguiram sair nunca mais… rsrs

Me despedi dos amigos que fiz e meti o pé na estrada com o Andrés Fluxa. Pedalaríamos juntos pela BA-001 até a entrada da BA-030, onde eu entraria na península de Maraú.

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BA – 001 com o Andrés
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A BA-001 tem bastante morro até o trevo com a BA-030. Andrés e eu tivemos que empurrar em várias subidas. O asfalto, em contrapartida, estava muito bom.

Chegando no trevo, Andrés seguiu pela BA-001 até Valença e eu entrei na BA-030 com o objetivo de chegar em Taipu de Fora. Era a primeira vez que eu estaria sozinho desde o começo da viagem.

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Praia de algodões
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A BA-030 é horrível de se pedalar. A impressão é que você está pedalando em cima de costelas o tempo inteiro. Uma dica: compre bastante água antes de sair de Itacaré ou em qualquer lugar que você encontrar pelo caminho. Existem longos trechos sem qualquer sinal de civilização.

Vinte e seis quilômetros depois do trevo, vi uma placa sinalizando a entrada para a Praia de Algodões. Não pensei duas vezes e entrei. Qualquer coisa seria melhor do que continuar naquela estrada trepidante.

Um casal carioca que estava sentado em um quiosque na beira da praia me ofereceu comida e cerveja. Fiquei alguns minutos ali comendo, bebendo e apreciando o visual. Aproveitei também para perguntar para o garçom se era possível chegar até Taipu de Fora pela areia da praia. Ele não tinha certeza, mas eu resolvi arriscar.

Estava quente, muito quente. A água que eu carregava parecia que tinha acabado de ser coletada de um chuveiro elétrico. Apesar disso, o vento parecia vir do sul pela primeira vez na viagem. Isso me ajudou muito naquele momento.

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Din, de Porto Seguro
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Lembram do cara que me hospedou em Porto Seguro? Enquanto eu estava em Itacaré, ele pegou a bike e resolveu ir para Morro de São Paulo. Quando estava voltando, nos encontramos por acaso na península de Maraú. Aproveitei para perguntar as condições da areia dali para frente. Péssimas notícias: a areia ficaria fofa e eu teria que empurrar a bike por vários quilômetros.

Ciente das condições, resolvi voltar para a BA-030. Só que isso só seria possível através de alguma propriedade privada. A primeira que eu encontrei era um hotel super luxuoso onde ninguém falava português, nem mesmo o dono. Expliquei a minha situação e pedi autorização para acessar a estrada através do hotel dele.

De volta para a estrada, as mesmas péssimas condições do começo. Só me restou aguentar a trepidação e a poeira, e seguir em frente.

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Sujo da BA-030
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Com 58 km de pedal, cheguei ao farol de Taipu de Fora. Empurrei a pesada bicicleta pela areia fofa até o alto do morro onde fica o farol (esse esforço cobraria o seu preço mais tarde). Tirei algumas fotos e pensei em passar a noite ali mesmo. Entretanto, achei que poderia ser perigoso e segui até Taipu de Fora.

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Farol de Taipu de Fora
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Dois quilômetros depois, cheguei em Taipu de Fora de fato. Por conta da areia fofa, carros não conseguem circular por lá, só quadriciclos. Toda hora eu tinha que descer da bike e empurrá-la pela areia fofa. O esforço do dia foi tanto, que chegou um momento que um dos músculos da minha coxa esquerda simplesmente travou. Eu já tido fortes cãibras, mas nada parecido com isso. Cai no chão de tanta dor.

Acabei ficando no camping em frente ao lugar onde desabei por conta das cãibras. Não precisei nem armar barraca, meu estado estava tão deplorável que a proprietária me deixou dormir em uma barraca do camping que tinha colchão.

Depois de comer e me recuperar. Fiquei conversando com as pessoas que frequentavam o restaurante anexo ao camping. Eu estava tão cansado que estava planejando pular a ilha de Boiepeba, até que conheci um casal do Rio que me convenceu a não fazer isso.

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Casal responsável por me fazer ir até Boipeba
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 # Dia 27 – Snorkel – 0 km

O camping que eu estava, na verdade é um restaurante. Se chama “O Cajueiro”. Os donos são uma família de goianos de Catalão e a comida é ótima. Recomendo com louvor!

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:)
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Comi um estrogonofe de frango da Elaine, peguei meu equipamento de mergulho e parti para a praia. Taipu de Fora tem bons lugares para mergulhar de snorkel.

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Isso que é mar
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Taipu de Fora
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# Dia 28 – Polícia Militar – 10 km

Parti para Barra Grande pela estrada de areia fofa. Toda hora era necessário descer da bicicleta e empurrar. Desta forma, cheguei em Barra Grande em cerca de 1h20m.

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Barra Grande
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O lugar é lindo, entretanto, tudo é muito caro, a desigualdade social é gigantesca, e a polícia trabalha o tempo inteiro para manter os miseráveis longe.

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Cena extremamente comum em Barra Grande
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Esta menina e sua irmã estavam catando latas às 5h50 da manhã. Ao fundo, uma viatura da polícia militar, que mantém os “parasitas” longe dos restaurantes e seus clientes endinheirados. Vi isso acontecer inúmeras vezes.

# Dia 29 – Mulher linda – 63 km

Apesar de Barra Grande ser um lugar lindo, me senti mal com todo aquele esforço para afastar as pessoas pobres dali. Tratei de pegar um barco para Camamu logo cedo e sair dali.

A passagem custou aproximadamente 5 reais. Não sei quanto tempo durou pois fui dormindo.. rsrs

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Indo embora de Barra Grande
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Chegando em Camamu, subi o morro em direção à BA-001, almocei em um posto de gasolina e comecei a pedalar os primeiros quilômetros dos quarenta e três até o trevo com a BA-884. A estrada estava em boas condições, mas não era plana. Tinha pequenos morrinhos que toda hora faziam sua velocidade cair.

Parei em Ituberá para comprar água e encontrei uma das mulheres mais lindas que já vi na vida dentro de uma loja de conveniência. Eu estava com o rosto preto de fuligem de asfalto, roupa imunda e molhado de suor, como se tivesse pegado chuva. Ela poderia ter aparecido na minha vida em um dia que eu pelo menos tivesse tomado banho, né? Tentei trocar algumas palavras, mas eu não parecia fazer o tipo dela… rsrs

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Entrada para Pratigi, onde aconteceu o Universo Paralelo em 2014
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Pedalei mais 14 km e entrei na BA-884. Até o Torrinhas (onde pega a lancha para Boipeba) são 13 km de asfalto com muitos morros e muitos buracos + 6 km de estrada de terra com morros piores ainda. Estava muito quente, e isso tornava tudo mais difícil.

Até o próximo post!
:)

 

 

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