Cicloviagem: Conceição da Barra – Salvador (Parte 2)

26 de fevereiro de 2014

Conceição da Barra - Salvador

# Dia 4 – Tempestade – 50 km

Não havia ninguém no cais da Ilha de Peroba. Quando avistamos um pescador passando no meio do canal, gritamos para que ele nos visse. Ele voltou e nos atravessou por 10 reais.

O desembarque em Caravelas foi em uma área de mangue, nos sujamos todos para conseguir chegar na rua do comércio. Enquanto Chamovitz comprava e instalava outro passador, fui para um posto de gasolina limpar a bicicleta e tomar um banho de mangueira.

Calibramos os pneus das bikes para a pressão máxima mais uma vez (pegaríamos 50 km de asfalto até Prado) e partimos.

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Desembarque em Caravelas
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Mais uma vez fomos revezando quem ia de frente para o forte vento nordeste. Apesar de ajudar muito, quem está na frente tem que sinalizar todos obstáculos, senão é queda na certa.

Ao chegar no trevo de Alcobaça fizemos uma pausa para o almoço e eu engoli uns 500 ml de energético. O restaurante que paramos tinha um filtro com água gelada de graça. Uma benção para quem está viajando de bicicleta.

De volta para a estrada, me surpreendi com os motoristas nos respeitando. Davam tanto espaço que até invadiam a mão contrária. Isso foi incrível.

Faltando aproximadamente 10 km para chegar em Prado, começou uma tempestade. A visibilidade baixou muito e fiquei com medo de ser atingido por um carro. Parei para procurar minha forte luz traseira, mas ela estava escondida dentro do alforge. O jeito foi seguir pedalando debaixo do temporal e torcer para tudo dar certo.

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Momentos antes do temporal
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Em Prado, acampamos no camping Fruta-Coco, cujo dono é uma figura. Comemos alguma coisa e capotamos.

# Dia 5 – Estrada maldita – 30,5 km

Acordamos tarde pois estávamos bem cansados. Pegamos as bikes e fomos procurar o beco das garrafas. Tínhamos ouvido falar de um ótimo restaurante chamado Jubiabá por aquelas bandas.

Eu não sei se foi por conta das condições precárias que estávamos nos alimentando nos últimos 5 dias que eu achei isso ou se o restaurante era excelente mesmo, mas foi uma das melhores comidas que comi na minha vida.

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Camarão na moranga do Jubiabá
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Depois de um almoço fantástico, partimos para Cumuruxatiba com um forte vento nordeste (o vento piorava à tarde). Seriam 30,5 km em uma péssima estrada que subia e descia por trás das falésias. Respiramos fundo e nos jogamos.

Logo no começo a estrada já tinha trechos intransitáveis. Muita lama, trepidação e subidas íngremes. Anoiteceu, e ainda estávamos ali, subindo e descendo morro com bikes pesadíssimas.

Meu cubo traseiro começou a dar sinais de que estava nas últimas e minha corrente caindo toda hora por conta de uma folga no movimento central. Eu simplesmente não conseguia pegar embalo na descida para subir o morro seguinte. A corrente caía e eu tinha que começar a subir o morro sem embalo. Tudo isso no escuro.

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Estrada entre Prado e Cumuruxatiba
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Finalmente avistamos o letreiro que anunciava a chegada em Cumuruxatiba. Iluminação pública, ruas calçadas e água para beber eram como um sonho naquele momento

As pousadas estavam apenas 5 reais mais caras que o camping. Não deu outra: optamos pela pousada.

# Dia 6 – Cabana mágica – 10 km

Acordei cedo e fui procurar o Franklin, mecânico de bikes da região. Enquanto ele mexia nos meus cubos, conversamos sobre a melhor maneira de chegar até a barra do Rio Cahy. Como a maré baixa já tinha passado, ele nos orientou a pedalar até uma cabana abandonada que a Globo construiu para gravar a novela Flor do Caribe, que fica próximo à barra do rio. De lá, poderíamos sair na manhã seguinte, quando a maré estivesse baixa.

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Cabana mágica
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Cabana mágica e as falésias de Cumuruxatiba
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Quando eu cheguei no local das fotos acima, eu PIREI (e olha que o tempo estava feio). A vontade era passar o resto da vida ali, vendendo coco para quem passasse… rsrs. Apelidei a casinha de “cabana mágica”, minha versão brasileira do “magic bus” do filme Into the Wild.

Ao anoitecer, peguei minha lanterna e fui dar uma volta. Fiquei horas observando os siris se movimentando e se alimentando de coisas que encontravam na areia. Depois fui no riacho, apontei a lanterna e fiquei mais um bom tempo olhando os crustáceos e pequenos peixes.

Voltei para a cabana mágica, limpei meus pés e fui dormir. Choveu bastante à noite, e apesar do teto da cabana mágica ser de palha, nos protegeu bastante.

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Dentro da cabana mágica
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# Dia 7 – Medo – 30 km

Acordamos por volta de 5h30, levantamos acampamento, nos despedimos da cabana mágica e empurramos a bike pela areia fofa por pouco mais de 2 km até a Barra do Rio Cahy.

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Barra do Rio Cahy duas horas antes da maré mais seca
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Chegamos algumas horas antes da maré mais seca, o que nos forçou a esperar para conseguir atravessar. Enquanto esperávamos, colocamos gravetos nas margens do rio para ter noção do quanto já havia baixado.

Nós tínhamos duas opções de travessia: água no pescoço sem correnteza ou água na barriga com muita correnteza.

Enquanto pensávamos, um morador da região atravessou no lugar com mais correnteza com a bike nas costas. Era o que a gente precisava para tentar também. Com a diferença que nossas bikes estavam pesando 3 vezes mais.

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Homem que nos encorajou a tentar logo
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Tiramos a bagagem da bike e dividimos tudo de forma que necessitaríamos fazer cerca de 6 viagens. A correnteza era muito forte e haviam grandes buracos, o que fazia com que você fosse arrastado por alguns metros até que encontrasse o chão novamente.

Foi a primeira vez que eu senti medo nessa viagem.

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