Papa de milho verde | Blog da Anette

Papa de milho verde

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A papa de milho verde é uma das delícias da culinária típica da minha terra, o Espírito Santo. Os estudiosos ensinam que na língua tupi, capixaba significa, roça, roçado, terra limpa para plantação. Os índios que aqui viviam chamavam de capixaba sua plantação de milho. Com isso, a população da ilha de Vitória passou a chamar de capixabas os índios que habitavam na região e depois o nome passou a denominar todos os moradores do Espírito Santo. Gosto de pensar que houve um tempo em apenas quem nascia em Vitória era chamado de capixaba. Confesso que me sinto mais capixaba do quem nasceu em outros municípios.

Bom, vai rolar uma estória com a participação do meu pai. Foi com ele que aprendi a fazer a papa de milho verde. Aliás, foi com ele que aprendi a plantar o milho, esperar a colheita e saborear a papa, no melhor estilo Galinha Ruiva.
Bastava dar uma boa chuva para papai anunciar:

- Amanhã vamos plantar o milho para garantir a festa de São João!

A terra já estava arada, era só abrir as covas com uma engenhoca engraçada. Papai e os meeiros iam na frente. A criançada ia atrás semeando e as galinhas fechando o cortejo e atacando os grãos de milho que vez por outra caiam do embornal.

- Vocês estão desperdiçando muito milho. Reclamava papai.

- Olha quanta galinha atrás de vocês. Se elas comerem tudo agora, não vão ter nada para comer depois. E nós também vamos ficar sem polenta, sem milho assado e sem papa. Anette, você que é mais velha trate de dar exemplo.

Bem que eu tentava, mas era divertido ver a corrida das galinhas e dos franguinhos. Ciente da minha responsabilidade, chamava a criançada para o trabalho.

Só parávamos para beber água, chupar laranjas e almoçar. O tempo para plantar é curto. No final do dia dava gosto de ver o resultado do trabalho.

Voltar para casa era muito cansativo. A roça ficava distante e tínhamos que voltar a pé. Claro que eu voltava reclamando.

- Tô com calor, com sede, toda picada de mosquito!!

- Na próxima na curva eu coloco você nas costas e te carrego um pouco.

- Qual curva, pai?

- Na próxima. Aquela que tem uma árvore com ninho de Anú preto.

- Qual cuuuurva, pai? Caprichava na entonação do U. Batia o pé no chão

- Na outra. Aquela que tem jaqueira tombada.

Assim, de curva em curva íamos chegando em casa. Quando estávamos bem pertinho, ele se abaixava e deixava eu subir nas suas costas.

- Agora tá perto, não tem mais graça, pai!

- Pense que foi um passeio, que você aprendeu o caminho de casa, viu o ninho do anú e até contou quantas jacas vamos colher em alguns meses.

Os dias da infância corriam e logo chegava o tempo da colheita. A alegria se espalhava. A primeira colheita de milho verde acontecia no finalzinho de maio, quase junho. O caldeirão com água fervente esperava as espigas com caroços gorduchos também serviam de morada para umas lagartas igualmente gorduchas. Era preciso limpar bem, retirar cada fiapinho. As galinhas ficavam por perto esperando as sobras e as lagartas.

Sobre as espigas cozidas espalhávamos uma camada bem grossa de manteiga fresca. Um cheiro indescritível tomava conta da cozinha.

As filhas dos meeiros disputam as palhas, os sabugos e os fiapos do milho para fazer bonecas bem diferentes das que quardava no armário e morria de vergonha de mostrar. Preferia fabricar e brincar com as bonecas de milho. Duravam o tempo das férias, mas não perdiam o encanto.

Depois que o milho era dividido entre as famílias era hora de fazer a papa. As espigas eram raladas no ralador. A polpa espremida em um pano de prato bem branquinho. A água era acrescentada aos poucos. Papai não usava leite e não tinha medida para fazer papa. Os ingredientes eram acrescentados a cada prova ou “ no olho”. O incrível é que sempre dava certo.

A papa cozinhava por algumas horas. Papai e mamãe revezavam-se na tarefa de mexer com uma colher de pau com cabo bem comprido. O cheiro doce invadia cada canto da casa.

- Posso experimentar?

- Tá crua, vai dar dor de barriga?

- Só um pouco. Insistia.

- Hii, tem gente que vai dormir com as galinhas ou vai sujar a cama toda. Papai ria.
Vencido, me dava uma provinha.

Anos mais tarde, quando papai estava doente, pediu para comer papa. Não era época de milho verde e foi difícil encontrar para comprar. Uma ouvinte da Rádio Gazeta AM me enviou algumas espigas. Até aquele momento eu não imaginava que sabia fazer papa.

- Foi a melhor papa que comi na minha vida. E piscou o olho. Cúmplice.DSCN5134

Papa de Milho Verde

Ingredientes

4 espigas de milho verde
03 xícaras de água
Açúcar a gosto
1 pitada de sal
canela em pó para polvilhar

Prepare assim: Rale as espigas e passe por uma peneira com a de água. Leve ao fogo mexendo sempre até obter um creme grosso. Acrescente o açúcar e mexa por mais 5 minutos. Coloque em uma travessa e polvilhe com canela em pó.

 

Ajudinha:

Brinox – panelinha – ref. 0303/010 – 130 ml – 11x 8 cm

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