Meu pai, as uvas e a reinvenção da fábula – Fondue de chocolate | Blog da Anette

Meu pai, as uvas e a reinvenção da fábula – Fondue de chocolate

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Aproveitei o ventinho frio para despedir-me do inverno com uma fondue de chocolate amargo com frutas – bananas, morangos, damascos secos e uvas verdes.

Ah, as uvas!!!

Tudo era novidade quando mudamos para a casa nova. O piso de madeira, a banheira azul, um quarto só meu, a despensa, o sótão misterioso, as janelas que abriam para um jardim lindo, com grama amendoim com florezinhas amarelas.

O jardim era a minha paixão.Tinha um laguinho com peixes, um flamboyant, um pinheiro que já imaginava repleto de lampadinhas, um pé carregado de carambolas e um pé de acássia amarela com as últimas flores do verão. Na lateral, sobre um caramanchão de madeira pintada de branco, debruçavam-se três parreiras, as únicas que eu havia visto em toda a minha vida.

Demorei um pouco para me acostumar com os ruídos da casa. Bastava ouvir um estalido e já estava em pé ao lado da cama de papai.

- Deixa de ser medrosa. É o vento batendo nas árvores, volta para cama. Resmungava, sonolento.

- Não é o vento. Tem gente andando no quintal!!

- Anette, isso é hora de dormir, todos dormem. Eu também quero dormir. Volta para cama!!

- Você me leva? Implorava, entre um muxoxo e um suspiro.

Para ficar livre da chateação noturna, papai me levava para a minha cama. Deixava a lâmpada do nicho da santinha , no corredor, acessa. Um último olhar e dava o caso por encerrado.

- Não tem barulho, não tem gente. É só o vento brincando com os galhos de árvore. O vento é seu amigo e não vai mais perturbar. Feche olho, que o sono volta.

Rezava para o vento continuar meu amigo. Se ele era meu amigo e eu morria de medo, ficava imaginando como seria, se ele fosse meu inimigo. Melhor não pensar, melhor dormir.

Aproveitava o tempo livre para bisbilhotar o jardim. Gostava de ficar olhando as nuvens entre as folhas das parreiras. Deitava de barriga para cima e ficava espiando. Um dia, descobri umas florinhas miúdas, brancas, meio espinhosas, amontoadas em pequenos cachos. Lindinhas!!!

Corri para mostrar para papai.

- Oba. Vamos ter uvas!!! Preste atenção enquanto elas crescem e não aponta com o dedo para elas não caírem. Logo, vão ficar maduras !!!

- Demora muito? Perguntei, hiper curiosa.

- Demora o tempo da natureza, depende da chuva, do sol. Depende das abelhas, do vento e depende de uma menina que fica falando o tempo todo nos meus ouvidos. Se ela se comportar direito e não ficar pertubando, elas ficam maduras logo.

De boca fechada, decidi esperar. Todo dia olhava e nada. Uvas verdes, muito verdes. Sorrateiramente catava uma uva e quase morria engasgada de tão azeda que era.

Papai colhia um cacho e comia sorrindo. Quer uma?

- Não, pai, estão verdes. E azedas, muito azedas.

- Experimenta. Você esta enganada, estão excelentes. Um mel!!

- Não, Deus me livre, é muito ruim. Detesto. Quero uvas maduras. Continuava com a minha ladainha.

- Vou espera até ficarem roxinhas!!!

Papai ria da minha cara e comia mais uvas. Todo final de tarde era a mesma estória: ele insistindo para que eu experimentasse e eu reclamando que estavam azedas e que preferia esperar até que estivessem maduras.

Levou um bom tempo até ele resolver contar a verdade.

- Anette, vem cá. Experimente, filha, enquanto estendia a mão cheia de uvas verdes.

- Eu estou pedindo. Experimente !!!

A contragosto coloquei uma na boca. Fiz uma careta e apertei entre os dentes. Ouviu um estalo e senti o gosto do caldinho. Era bom. Era doce

A esta altura, papai já estava dando gargalhadas da minha cara.

- É uva verde, Itália, a casca é verde, mas esta madura e muito doce. Não se deixe levar pelas aparências, sua boboca! Eu falei para você experimentar e você não quis. Está vendo o que você perdeu??

Fiquei furiosa, pensando nas uvas que deixei de comer. Logo, eu, que havia descoberto as primeiras florezinhas!!! Saí reclamando, pisando forte e falando o único palavrão permitido na minha criancice.

- Droga, droga, droga!!!!

Ao entrar em casa, ainda pude ouvir papai me chateando mais um pouco.

- Você fica muito bonita com as bochechas vermelhas e com essa cara emburrada.

Anote os ingredientes

300g de chocolate amargo Le Chocolatier

1 xícara de creme de leite fresco ( sempre acrescento um pouco mais )

1 colher de sopa de manteiga

Frutas sortidas cortadas em cubos

Prepare assim: Derreta o chocolate Le Chocolatier em banho maria. Acrescente o creme de leite fresco e a manteiga, abaixe o fogo e misture até incorporar. Desligue o fogo, transfira para a panelinha de fondue de chocolate ( esmaltada ou de porcelana ). Acenda o réchaud, coloque a panela e deixe aquecer. Espete as frutas em garfinhos e mergulhe no chocolate. Delícia. Cuidado para não queimar os lábios.

Gostou da minha panelinha de fondue de chocolate? Ganhei de presente do Peterson Dias da M. Gerais.

 

Ajudinha:
Le Chocolatier – o chocolate que não dá vontade de parar de comer

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