Manjar dos deuses com doce de banana | Blog da Anette

Manjar dos deuses com doce de banana

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Quando a família imperial chegou ao Brasil ficou absolutamente encantada com o leite de coco. O sabor, levemente adocicado, deixou a corte portuguesa babando. A fartura de açúcar, as mãos habilidosas das escravas, os tacho de cobre, os cadernos de receitas de mil oitocentos e antigamente, delicadamente copiados pelas jovens casadoiras. Um prato cheio – sem trocadilhos !!!

Graças a todos esses fatores, as receitas medievais portuguesas foram adaptadas aos ingredientes e ao calor tropical. Surge então o manjar branco. Sai o peito de galinha ( como assim? ) e entra o leite de coco. Isto é que eu considero uma troca inteligente.

Curioso, sobre o peito galinha? Acompanhe a estorinha no final do post. Por enquanto vamos para a receita do século XIX, mais gostosa, mais doce e mais brasileira.

O manjar branco sempre teve lugar garantido nas festas familiares. Fez parte do cardápio de sobremesas do último Baile na Ilha Fiscal, no finalzinho da monarquia. De vez em quando fica meio sumidinho. Até que alguém, para felicidade geral da nação, lembra e proclama: que vontade de comer manjar branco com doce de ameixas!!!

A receita tradicional leva leite de coco, leite, um pouco de água, açúcar e um pouquinho de amido de milho. Minha bisavó materna era especialista em manjar. Não seguia uma receita. Fazia de olho, juntando um pouquinho de cada ingrediente, provando uma amostra no dorso da mão. Sabia direitinho quando estava no ponto certo. Tirava da panela, colocava na forma de alumínio, direto para a geladeira. A  melhor parte vem agora: a hora de desenformar, uma torcida para não quebrar. Opa, perfeito. Ria seu riso fácil e fazia a alegria do marido, Benjamin, que chamava o manjar de Treme-Treme.

Minha mãe menina, aprendeu com ela o segredo do manjar. Eu aprendi com minha mãe e divido com vocês a receita do manjar sem leite condensado, sem gelatina e sem ovo. O manjar da minha meninice.

O doce de banana, prometo, fica para outra oportunidade. Combinado?

 Manjar de coco

Ingredientes

500 ml de  leite de coco

200 ml de  leite

1/2 xícara de água

2 colheres de sopa de amido de milho

1/2 xícara  de açúcar

1 pitada de sal

 Prepare assim

Em uma panela, misture o leite de coco com o leite. leve ao fogo baixo. Quando começar a ferver,  junte, o amido de milho dissolvido na água, o açúcar e o sal. Deixe cozinhar Cuidado para não queimar no fundo da panela. Depois que ferver, cozinhe por 5 minutos. Coloque em uma forma decorativa previamente molhada com água.  Leve à geladeira durante 1 hora, ou até que fique firme.  Desenforme e sirva com  ameixa em calda, que é o acompanhamento tradicional.

Esclarecendo a estória do peito de frango no manjar

” Em meados do século XVI, uma princesa portuguesa, d. Maria, levou de Lisboa a Nápoles a seguinte receita de manjar branco: “Tomareis o peito de uma galinha preta e pô-lo-eis a cozer sem sal, senão na água, e há-de ser não muito cozida, para que se possam tirar as fêveras inteiras. (…) E para este peito é mister um arretel de arroz (…) e uma camada de leite deitada no tacho, e sete onças de açúcar. E tomareis a galinha e darlhe-eis três machucadas num gral, e deitá-la-eis a farinha de arroz e (…) o sal com que se tempere, muito bem mexido. Então, pô-lo-eis no fogo e (…) a tempo batereis. Quando estiver cozido, deitar-lhe-eis o açúcar e, se não for muito doce, poder-lhe-eis lançar mais; e, como for cozido, tirai o tacho fora e enchei as escudelas e deitai-lhe açúcar pisado por cima”.

A receita faz parte dos quatro cadernos manuscritos que ela levou consigo por ocasião de seu casamento com Alexandre de Farnésio, terceiro duque de Parma, Piacenza e Guastella.

A história do manjar branco é excepcional para entendermos as mudanças na cozinha ocidental. Ainda que esse seja um doce de que nem todos gostam, sua presença nas mesas portuguesas e brasileiras é uma tradição. De uma receita praticamente medieval, como a da princesa portuguesa, o manjar branco se transformou lentamente no doce de coco com calda de ameixa dos dias de hoje.

Em 1680, a receita de d. Maria já havia se transformado. Além de peito de galinha, levava açúcar, leite e água de flor – o sal já havia sido suprimido. Em 1780 o manjar branco foi descrito por um cozinheiro francês que trabalhava na corte de Lisboa como manjar “à portuguesa”. Levava ainda peito de galinha, farinha de arroz, açúcar em “pó” e leite. A receita atravessou o Atlântico e apareceu no primeiro livro de cozinha publicado no Brasil, O cozinheiro imperial, de 1841. Dessa forma, a sobremesa associa-se à história de Portugal e do Brasil e reflete tempos, sabores e saberes culinários de diferentes períodos.

manjar branco

Em seu livro Açúcar, Gilberto Freyre fala muito sobre a influência africana na cozinha brasileira, e o manjar branco é um dos melhores exemplos dessa influência. Ao longo do século XIX, ele perdeu o peito de galinha, mas ganhou o leite de coco. Não perdeu a cor, mas ganhou inimigos ferrenhos que o comparam com o pudim de leite. Pobre comparação, o manjar branco continua gostoso como sempre, com sua majestade imperial e histórica.”

Revista História Viva -  Joana Monteleone

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2 Comentários to “Manjar dos deuses com doce de banana”

  1. Oi Annete,
    Sou amiga de Sueli, sua prima, que me indicou o blog.
    Estou verdadeiramente encantada!
    Receitas simples, que me parecem deliciosas, acompanhadas de fotos soberbas e
    texto maravilhoso!
    Pronto! Ganhou uma seguidora fiel.
    Parabéns!

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