Guandu com camarões | Blog da Anette

Guandu com camarões

guandu 2 002

Aprendi com meu pai a comer todo tipo de comida. Da mais simples a mais sofisticada. Comer bem era o jeito dele sentir-se feliz. Gostava de mesa farta. Desperdício nem pensar!!!!

Me ensinou a catar a carne dentro das perninhas dos caranguejos, a comer ensopadinho de mamão verde, palmito crú e uma receita imbatível de moqueca de caroço de jaca. Na verdade ele acreditava que tudo poderia virar uma boa refeição. Dependia da fome e dos ingredientes disponíveis.

Papai preparava uma moqueca de guandu como ninguém. O tal feijão guandu, andu,ervilha-de-pombo e outros tantos nomes identificados pela sabedoria popular é uma delícia. Há quem prefira consumir quando ele está maduro ou seco. Os nordestinos preparam o guandu como uma feijoada e fica muito bom. Prefiro verde, recem colhido, com os grãos bem tenros. Depois de lavado, tem que dar uma fervura, para não amargar. Assim que ferver, tem que escorrer, trocar a água e colocar para cozinhar. Recomendo realizar o procedimento com as janelas abertas e o exaustor ligado. O cheiro não é nada agradável.

Quando passava férias em Aracruz, lá no Acary, aprendi a descascar o guandu. Tarefa difícil para quem tinha mãos tão pequenas em relação ao cesto com as vagens do guandu. Meus dedos doíam e ao final ficavam coloridos de um tom de vinho meio esverdeado. Demorava muito para sair. Papai esfregava cinza do fogão a lenha nas minhas mãos. Enquanto eu reclamava e ele aproveita para ensinar:

- Filha, nada é fácil na vida!!

- Mas, pai, eu preciso mesmo aprender a descascar esse monte de guandu? É muita quantidade, nós não vamos comer tudo!!!!

- Precisa, sim, para saber valorizar o trabalho. É o trabalho que nos dá dignidade para tudo na vida.

Anos mais tarde, recortei de uma revista a frase do Cazuza.

“ O trabalho nos dá dignidade para amar” – Eu já sabia.

A parte boa vem agora. Enquanto o guandu cozinhava. Papai iniciava os preparativos do refogado. Amassava o alho no fundo da panela, acrescentava a cebola finamente picada e colocava sobre a trempe do fogão. Uma ajeitadinha na lenha para avivar o fogo e logo o cheiro bom invadia a cozinha. Acrescentava azeite e urucum. Escorria o guandu e colocava junto como refogado. Um tantinho de água para formar um caldinho. Quando começar a ferver, deixava cozinhar por 10 minutos junto com o coentro bem picadinho.

- Pai, posso molhar o pão no caldinho?

- Pode. Cuidado para não encostar o braço na panela. E aí, tá bom?

- Não sei, posso experimentar de novo? Era minha estratégia para repetir.

- Ei, tem que sobrar para os outros!!!

- Acho que precisa de mais sal. Sentenciava, antecipando meus dotes culinários.

Meu pai finalizava a moqueca acrescentando ovos para cozinhar no caldinho. Quebrava o ovo em um prato e deixava escorrer para a panela. Acrescentava uma pitada de sal na gema. A conta era simples: criança tinha direito a um ovo, adultos, dois.

- Quer com gema mole ou dura?

- Não gosto de guandu com ovo, prefiro com camarão. Mas pode fazer com a gema dura.

- É, então vai pescar. Hoje só tem ovo e já está muito bom. Tem gente que não tem nada para comer.

Essa tagarelice toda acontecia na cozinha e era acompanhada de perto por mamãe o por João, meu irmão.

Mamãe arrumava os pratos sobre a tolha de plástico da mesa. Era uma mesa enorme com bancos compridos iguais aos da igreja. Papai sentava na cabeceira. Mamãe de um lado, eu e João do outro. Prefiria ficar perto da janela, o que sempre acabava em briga com João. Ainda destesto lugares fechados. Gosto de sentir um ventinho no rosto.

Papai amassava as pimentas frescas no fundo do prato. Colova o guandu, o arroz e os ovos. Regava com azeite e comia feliz.

De repente, assim do nada, falava:

-  É. Ainda tem muito guandu catado, acho que amanhã vou pescar uns camarões. Quem vai comigo? E piscava o olho para mim.

Euuuuuu!!!!

Tags: , , , , , , ,

Nenhum comentário :(.

Deixe uma resposta