Brevidade de araruta | Blog da Anette

Brevidade de araruta

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Tenho uma quedinha para enjôos, sempre tive. Desde criancinha. Viajar de carro sempre foi um desafio. Ficava horas em jejum. Mamãe colava um pedaço de esparadrapo na minha barriga, me dava um limão para cheirar a casca, trocava de lugar comigo, deixando eu sentada no banco da frente do carro. Tudo em vão. Era só passar a Ponte da Passagem e começavam os sintomas. Engulhos – como minha avó Odete dizia.

De engulho em engulho. Chegava a hora fatídica – cargas ao mar, outro termo só utilizado na minha família materna. Papai ficava bravo, muito bravo. Atrasava a viagem, sujava o carro. O cheiro desagradável invadia tudo.

- Mimi, você deixou essa menina comer. Quando papai ficava muito, muito bravo ela chamava mamãe de Mimi.

- Não. Múcio. Apressava em responder.

- Pai, eu estou mal. Está tudo rodando.

- Respira fundo Já estamos chegando.

- Para o carro, pai!!!!

Toalha, papel higiênico, a camiseta do João, o que estivesse à mão. Eu deixando um rastro inconfundível da minha passagem pela estrada até Aracruz.

Era crucial chegar em Ibiraçú. Parada obrigatória para comer pastel com caldo de cana. Vem dessa época o horror que tenho pelo caldo de cana.
Meus primos e primas atacavam os pastéis. Queijo, carne moída, bacalhau. Nossa!!

- Quer um pedaço! Só uma mordida. Está uma delícia!! Era João, me torturando, como só os irmãos sabem torturar.

- João, fica longe da sua irmã! Ela não pode comer nada! Era papai, bravo. Muito bravo.

O cheiro da fritura desencadeava uma nova onda de enjôos. Mamãe caminhava comigo na beira do asfalto.

- Vai passar. Quando chegarmos no Acary, faço um chá de cidreira e você vai ficar bem.

Assim, de curva em curva, de enjôo em enjôo, chegávamos a casa.

Papai, menos bravo, se apressava em pegar as folhas de cidreira.

- Anette inventa isso, só para não fazer nada! Reclamava João, retirando a tranqueira de dentro do carro, ligando a geladeira, varrendo os quartos, abrindo as janelas, chutando as sacolas.

O chá acalmava o meu estômago. Mamãe preparava um banho morninho.

- Depois do banho você vai ficar bem melhor! Mamãe sentenciava do alto dos seus conhecimentos de medicina. O manual de primeiros socorros de D. Mariazinha tornava obrigatório um banho, independente da doença e dos sintomas.

Dor de cabeça – banho! Perna quebrada – banho! Cólica – banho! Unha encravada – banho! Gripe – dois banhos. Um antes do antitérmico e outro depois do suador.

Ontem, não foi diferente. Cheguei a casa passando mal. Dor de cabeça, enjôo, tonteira. Não conseguia nem tirar os sapatos. O estômago doendo de tanto vomitar.

- Minha filha, toma um banho. Olha aqui a toalha. Vou fazer um chazinho. Pode ser preto? Já está escuro e não dá para tirar cidreira no jardim.

- Pode, mãe!!!

A água morninha aqueceu meu corpo cansado. O chá me fez relaxar. Dormi por uma ou duas horas, na cama de mamãe. Ela assistindo a novela e velando o meu sono, cobrindo as minhas pernas, perguntando se estava melhor.

Acordei e fui trabalhar. Mas a verdade é que estou dodói. Voltei para casa. Um enjôo bem chatinho, uma dor de cabeça que não dá trégua e uma vontade enorme de ficar embaixo do cobertor, bem escondida. Coisas da vida, não é?

No final da tarde senti um cheirinho adocicado pelo ar.

- Anette, tem uma surpresa para você! Vamos lanchar?

Esfreguei meus olhinhos. Voltei a ser a criança. Desci a escada. Sobre a mesa bem arrumada, uma xícara de chá e uma caixinha de brevidades quentinhas. Melhor impossível!

- Não coma muito, você ainda não está bem!

Brevidades da D. Mariazinha
Ingredientes

200g de araruta
200g de açúcar
2 ovos
Casquinha ralada de um limão

Prepare assim: Bata as claras em neve. Junte as gemas e o açúcar ( peneirado) e as raspinhas de limão. Adicione a araruta ( peneirada) misturando bem com a ajuda de uma colher. Não bata, faça movimentos circulares delicado até a massa ficar bem homogênea. Distribua a massa em forminhas untadas com margarina e polvilhada com farinha de trigo. Arrume as forminhas em um tabuleiro e leve para assar em forno preaquecido a 200º. Faça o teste do palitinho para conferir se esta no ponto.
A receita da D. Mariazinha é bem antiguinha, A brevidade é feita com araruta, ingrediente difícil de conseguir. Comprei a araruta na barraca de São Mateus, na Feira da Agricultura familiar que aconteceu aqui em Vitória.
Santa Araruta! Já estou me sentindo bem melhor. O será que foi o banho? O chá? O carinho de D. Mariazinha? Tudo junto? Será? Será?

Paninho de crochê do enxoval de casamento de papai e mamãe

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3 Comentários to “Brevidade de araruta”

  1. Acrescento aos “engulhos” e “cargas ao mar”, outras preciosidades da família materna: “vistosa”, “outrossim”, “escangalhar”, “encarnado” (a cor) e outras maravilhas…

  2. Sacaporrão é o melhor! Bem lembrado. Ah, e tem o preferido da Lara: “croques”, usado em substituição aos cascudos..,

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