Arroz doce | Blog da Anette

Arroz doce

arroz doce - mini arroz 2 009

As festas juninas são as minhas preferidas do calendário. O Natal é sempre maravilhoso, mas se bobear pode ficar nostálgico, repleto de recordações dos que já pegaram o trem para vida eterna. A Páscoa é deliciosa, mas parece festa para crianças. É coelhinho, ovinho: tudo muito bonitinho.

Festa junina, não. A “pegada” é diferente. Tem quentão, quadrilha, fogo, casamento na roça, fogueira. Sou fascinada por fogueiras. Mesmo as pequeninas, feitas com gravetos, cativam o meu olhar. Lá vem estória de infância. Lá em Aracruz, no Acary.

Meu pai era devoto de Sant’Ana, avó do menino Jesus, e de São João. Minha avó se chamava Ana e dela herdei o nome em diminutivo. Meu avô se chamava João e meu irmão, também herdou o nome. Melhor voltar para a estória da fogueira.

O dia de São João é comemorado em 24 de junho, de Sant’Ana em 26 de julho. Mas meu pai gostava de aproveitar o aniversário do João ( 21 de junho ) para fazer uma grande fogueira, uma bela festa junina e comemorar as três datas. A conta era simples: agradava ao santo, a santa, fazia a felicidade do filho e não gastava dinheiro. Na verdade eu não sei se o João gostava muito de comemorar o aniversário com a realização de uma festa junina. Quem era bobo de tentar contrariar os desejos do seu Múcio?

A trabalheira começava bem antes. Primeiro as bandeirinhas. Dobrar o papel de seda no vinco, recortar, colar no barbante, esticar na varanda par secar. Toda noite tinha uma sessão de fabricar as bandeirinhas.

A lenha da fogueira já estava no quintal, secando. As toras eram cortadas com muita antecedência. Ficavam empilhadas perto do galinheiro e só saiam de lá par virar cinzas. Triste final.

No sábado mais próximo ao dia 24 acontecia a festa. A movimentação começava cedo. Os homens ficavam encarregados de montar a fogueira, pendurar as bandeirinhas, preparar os fogos e montar uma mesa bem grande embaixo das árvores.

A criançada se dividia entre a cozinha e o quintal. O fogão à lenha ficava coberto de panelas. Papa de milho verde, canjica, molho para cachorro quente, arroz doce, carne de porco assada. Na minha infância, porco era porco, só recentemente virou suíno. Mais charmoso e com redução de gordura.

- Tira a mão daí!!! Mamãe reclamava. Pensei em escrever – ralhava – mas a palavra é antiga demais, não?

- Só peguei um torresmo!! O torresmo feito com um pouco de carne, bem crocante, salgado. Um sabor que não encontro mais nos torresmos que como por aí.

- Nada disso. É para a festa. Seu pai vai brigar.

No fundo no fundo, eu sabia que era apenas uma ameaça. Papai não ia brigar comigo por causa de um torresmo. Aproveitava um descuido de D. Mariazinha para pegar mais um punhado de torresmos. Por garantia levava alguns para papai.

- Quer um – oferecia para papai.

- Onde você pegou?

- Mamãe me deu. Mentia, como sóa as filhas sabem mentir para os pais.

- Foi, mesmo!!! Papai olhava para as minhas bochechas vermelhas. Olhava de um jeito que só os pais olham para as filhas que contam mentiras.

- Ahh, tá bom! Isso é gorduroso. Faz mal. Depois, não diga que não avisei.

Passava o dia comendo torresmo escondido. Bebia copos de limonada para disfarçar o cheiro na boca.

No final da tarde a fogueira era acessa. Todo mundo de banho tomado, perfumado, com roupa de caipira, maria chiquinha no cabelo, chapeuzinho de palha. O sanfoneiro chegava e a festa começava. Depois de dançar um pouco, meio desengonçada. Nunca fui boa em danças, começava a passar mal.

- Mãe, estou enjoada. Tonta.

- Outra vez, Anette. É sempre assim. Você passa o dia comendo torresmo e agora fica com enjoos. Mamãe ficava furiosa.

O cheiro do chá de cidreira com louro invadia minhas narinas. Era beber e correr para o banheiro.

Da janela do quarto ficava olhando a festa. A fogueira se consumindo, as crianças brincando com estalinhos e chuvas de prata, os casais dançando quadrilha, os homens bebendo quentão. Minha cabeça rodava, um tonteira insuportável. A bolsa de água aquecia minha barriga.

- Melhorou. Era papai, encostado no parapeito da janela.

- Um pouco. Resmungava.

- Vai passar. Amanhã você acorda bem cedo e come um monte de torresmo de novo.

- Prometo que não vou fazer mais. Promessa em vão.

Quando a fogueira desmoronava todos davam vivas, batiam palmas, gritavam:

- Viva São João, viva!!! Viva Sant’Ana!! E finalizavam cantando parabéns para meu irmão.

Depois de comer bolo, era hora de colocar batatas doces, bananas e espigas de milho para assar. Dormíamos com o cheiro de fumaça misturado com as delícias que ficavam assando para o café da manhã.

Banana quentinha com manteiga derretendo, batata doce e mais manteiga, e mais ainda no milho. Opa, quase esqueço do aipim assado na casca com mais …. manteiga!!!

- Anette, é muita gordura. Lembra de ontem!!! Papai chamava a minha atenção para a repetição da gulodice.

Sem graça, disfarçava e pegava um pouco de arroz doce, que pelo menos não era gorduroso, mas igualmente delicioso. Naquele tempo, nem passava pela minha cabeça que o arroz branco era um carboidrato, que aumentava o índice glicêmico, que era calórico. Que o leite era integral, que tinha açúcar. Era gostoso e isso bastava.

Arroz doce

Ingredientes

1 xícara de arroz
1 litro de leite
4 colheres de sopa de açúcar
Cravo e canela a gosto

Prepare assim: Ferva o leite. Acrescente o arroz lavado. Deixe cozinhar, sempre mexendo com uma colher. Quando o arroz estiver bem macio, junte açúcar a gosto e uma pitada de sal. Cozinhe até que fique cremoso e o arroz bem molinho. Tire do fogo e sirva com canela em pó. E nhac!

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1 Comentário to “Arroz doce”

  1. Ahh, é minha festa preferida tb! Abomino peru de natal, fios de ovos, etc. Não sou fã dos chocolate da páscoa também. Mas a junina…A junina é um pecado atrás do outro. Arroz doce, milho cozido, tuuudo que leva amendoim (paçoca, pé de moleque, etc), pipoca, affff. Ah se a minha “religião” permitisse!!…
    Deu água na boca, querida!
    Bjs

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